2leep.com

29 de abril de 2014

Canal Livre Entrevista José Mujica


"Os jornalistas Ricardo Boechat, Fernando Mitre e Fabio Pannunzio viajaram até o Uruguai para entrevistar o presidente do país, José Mujica. Eleito em 2009, "El Pepe" vive e casa modesta na zona rural de Montevidéu, doa maior parte do seu salário para pessoas carentes e se locomove no seu fusca 1977."



José Alberto Mujica Cordano, ou Pepe Mujica, nasceu em Montevidéu em 20 de maio de 1935. Foi eleito Presidente da República Oriental do Uruguai eleito em 29 de novembro de 2009. Foi também deputado, ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca e militou em atividades de guerrilha como membro do Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros durante o período de ditadura no Uruguai. Passou 14 anos na prisão  sendo libertado em 1985 no final da ditadura.

Mujica recebe aproximadamente 12.500 dólares mensais por seu trabalho à frente do país mas doa 90% de seu salário para ONGs e pessoas carentes. Seu carro é um fusca e ele é ateu. Mora em um sítio próximo de Montevidéu. Vive com o que sobra do seu salário - cerca de R$ 2.538,00 - “Este dinheiro me basta, e tem que bastar porque há outros uruguaios que vivem com bem menos”.

27 de abril de 2014

Copa do Mundo, FIFA e outros bichos - por Guima


Acabou. Não há o que se fazer. A Copa do Mundo já passeia sorridente pelas ruas do país. Por mais que se façam manifestações, não acredito que consigam parar tanta euforia. Digo euforia, por rimar com alegria, idolatria e tantos  outros substantivos abstratos, que infelizmente, ganham status de concretude, diante de uma situação de miséria, corrupção e insegurança.


Acredite! Não estou aqui para torcer contra o Brasil ou a favor da Argentina. A minha causa  é mais nobre. Não temos moral para patrocinar um evento como este. Pelo ao menos, enquanto nossas paisagens exuberantes dividirem espaço com mendigos  dormindo sob as marquises. Com usuários de Pelé, Zico, Romário e Neymar espalhados por toda a cidade ou enquanto  a  nossa educação estiver aguardando uma ambulância da SAMU para ser socorrida.


Neste exato momento, estou entre a negação e a raiva. Ainda não acredito no apito final, mas já começo a sentir um ódio, fantasiado de mau-humor crônico, a me subir pela espinha. Hoje, não queiram me encontrar em uma fila demorada do INSS ou numa Avenida chamada Brasil.


Continuo brasileiro e patriota, dentro e fora de campo, mas não retiro rigorosamente nenhuma vírgula do que escrevi. Por ora, vamos mudar de assunto, que eu já não aguento mais escutar, nem falar de futebol!


21 de abril de 2014

Os governantes e os ouvidos moucos da arrogância, por Aldo Fornazieri - Luis Nassif Online


Maquiavel é tido como o pai da política moderna. Exerceu enorme influência na republicanização do pensamento político inglês, via pela qual influenciou também o debate constitucional e o republicanismo norte-americanos. A política brasileira, sabidamente, é antimaquiaveliana em dois sentidos: 1) no processo de formação dos nossos governantes nunca esteve presente a ideologia da virtude (virtù) enquanto qualidade moral e capacidade operacional excepcional do líder, orientadas para a construção da grandeza do Estado e do exercício bom governo para o povo; 2) a construção do nosso processo democrático e republicano foi marcada pela ausência de uma efetiva ideologia republicana da preeminência da coisa pública e da participação autônoma da cidadania política no controle do exercício do poder. Não é um mero acaso que a primeira edição de O Príncipe em língua portuguesa só apareceu em 1935.

A política brasileira carrega, até hoje, os vícios da tradição patrimonialista, do particularismo, da intriga, do engano, da imoralidade, da usurpação e da corrupção. Na nossa tentativa de construção nacional, os aglomerados dos grupos particularistas sempre usurparam o interesse geral e bloquearam a perspectiva de construção de uma comunidade nacional. A falta de sentido e a desordem fizeram com que os acasos (fortuna) prevalecessem sobre as virtudes. As “ideias fora de lugar” e os “mal-entendidos”, no que diz respeito à democracia e a república, estão aí até hoje.

Os líderes com perspicácia estratégica, prudentes e virtuosos, foram raríssimos. Em contrapartida, os autoritários, os arrogantes e os ignorantes foram e são abundantes. Com isso, não se percebem as mudanças das conjunturas, as necessidades de inovação, as ocasiões e as oportunidades que se apresentam para conferir um sentido ao Brasil e construir uma comunidade de destino nacional. Uns, os oportunistas, se aproveitam do poder como forma de viver da política. Outros, cegados pelo dogmatismo ideológico, esquizofrenicamente, negam o princípio de realidade e adotam fórmulas abstratas, mantendo o país prisioneiro da inatualidade. A nossa defasagem e desarticulação em relação à globalização é um exemplo clamoroso do estrago que as fórmulas ideológicas alienígenas podem produzir.


A Necessidade de Líderes Prudentes

Discutir a qualidade da nossa política e das nossas instituições é uma demanda fundamental para a produção de uma nova cultura - mais democrática e mais republicana. Neste ano, a discussão se torna ainda mais pertinente por termos eleições gerais no país. Os candidatos devem ser pressionados e demandados quanto aos compromissos para com a moralidade e a ética públicas.

O eleitor, no processo de decisão de seu voto, de modo geral, leva em consideração três critérios: as qualidades do líder, sua história (realizações etc.), e o programa (interesses e promessas que suscitam esperanças). Desde a filosofia política grega – particularmente desde Aristóteles – a qualidade da prudência está na mais alta conta como exigência de uma virtude inerente ao grande líder. Trata-se, evidentemente, de um conceito complexo que se desdobra em várias interfaces. Uma das sínteses possíveis desse conceito pode ser traduzida como a qualidade que o líder deve ter para decidir (deliberar) e agir de forma adequada no sentido de obter o resultado desejado e igualmente adequado para os governados, em se tratando de governantes.

Maquiavel adjudica a virtude de prudente ao líder que sabe ouvir conselhos. O governante que não sabe ouvir, normalmente se deixa enganar pelos aduladores. Os aduladores, por serem aduladores e quererem tirar proveito de suas relações com o poder, mentem e escondem a verdade ao governante. É uma boa fórmula para o desastre político. O governante prudente, porém, não pode deixar que todos lhes digam a verdade e a qualquer momento. Perderia a autoridade e o respeito. Ele deve solicitar os conselhos a pessoas sábias, probas e competentes, deixando que expressem suas opiniões para depois deliberar. A prudência (boa deliberação) não vem dos bons conselhos, mas da qualidade do governante de ouvi-los.

O líder democrático moderno, que é prudente, estimula o debate e a participação popular, ouve seus auxiliares, ministros e secretários, consulta a opinião pública, requisita estudos e análises de especialistas antes de deliberar. O líder prudente considera, inclusive, as opiniões divergentes e conflituosas. A administração dos negócios públicos e o exercício do comando político são afazeres tão complexos no mundo de hoje que a ideia de um filósofo-rei platônico onisciente e capaz de decidir sobre todas as coisas a partir dele mesmo não faz o menor sentido.


O Brasil e os Líderes Arrogantes

O oposto do líder democrático e prudente é o líder autoritário. Existem dois tipos: o autoritário porque é ignorante e faz do seu autoritarismo um instrumento de acobertamento de sua incompetência; e o autoritário porque é arrogante e se considera portador de um saber absoluto, o que o torna igualmente ignorante. O governante autoritário ou ignorante não ouve. Entram aqui os políticos com perfil de tecnocratas, com fama de gerentes. Mandam, gritam, exigem, não permitem o debate. Por arrogância ou por ignorância, eles estão “sempre certos”.

Outra forma de perquirir a prudência de um governante consiste em analisar a qualidade de seus auxiliares e a relação que ele mantém com estes. A boa política maquiaveliana recomenda que, nesse caso, se siga aquela máxima popular: “dize-me com quem andas e te direi quem és”. O governante deve cercar-se de auxiliares reputados, probos, competentes e fiéis. E deve requisitar-lhe o aconselhamento. Um dos paradigmas positivos neste caso aqui foi Lincoln, que chegou a escolher como Secretários de seu governo os seus concorrentes nas eleições presidenciais por serem competentes.

No Brasil, a regra dos políticos é a de não importar-se com a presença das más companhias. A mais nova vítima desta imprudência foi o petista André Vargas. Não será a última. Oportunistas, aproveitadores e corruptos se acercam a todos os partidos e ocupam cargos em quase todos os governos.

Os piores males da falta de prudência consistem em deliberar e agir sem levar em consideração as possíveis consequências das decisões e das ações. Os governantes arrogantes são escolados nessa prática nefasta. Ao se depararem com o desastre de suas ações, a culpa é dos outros. Trata-se da ausência da ética da responsabilidade a que se referia Max Weber. Os desmandos administrativos, o desperdício de recursos, a construção de obras desnecessárias, a carência de direitos dos cidadãos, os maus negócios, as escolhas erradas que provocam desastres econômicos e sociais são apenas algumas consequências dessa falta de ética da responsabilidade e de bom senso. O descrédito da política e dos políticos, construído tijolo por tijolo por eles mesmos, expressa, nesse momento, uma maior consciência da sociedade sobre a má qualidade da cultura e das práticas políticas no Brasil. Neste momento de repulsa à política, que é a forma de uma consciência ainda negativa, tende a traduzir-se num elevado número de votos brancos, nulos e de abstenções nas eleições presidenciais.

Aldo Fornazieri – Cientista Político e Professor da Escola de Sociologia e Política.

_____________________________________

O espaço do Luis Nassif é excelente. Muita coisa boa por lá. Recomendo que visite. Devo esclarecer que reproduzi o texto aqui no Parlatório sem expressa autorização, no entanto, acredito que por  sua clareza, simplicidade e relevância, deve ser divulgado em todos os cantos possíveis, com os devidos créditos é claro, para que chegue ao maior número de olhos.
2leep.com