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30 de novembro de 2013

A repetição da insanidade

No estágio atual do capitalismo país nenhum cederá grana e posição em troca do futuro da vida no planeta.

Se você se preocupa com as catástrofes ambientais que irá deixar para as gerações futuras, relaxe. Cientistas, porta-vozes dos governos de países industrializados e de federações empresariais tratam de dar um jeito de absolvê-lo.


Não somos os responsáveis por essas traquinagens. Para o banco dos réus deverão ir os processos que correm há bilhões de anos neste mundão, explosões solares, ou coisas de Deus, para os criacionistas, e das conjunções astrais, para os astrólogos.

Penso sobre isso, parado no trânsito junto ao rio Pinheiros, em São Paulo, percebendo odor insuportável. Fico calmo. Afinal, a culpa não é minha nem de quem me circunda. Passo, então, a sorrir simpaticamente a todos, inocentes.


No dia seguinte, folhas e telas cotidianas voltam a tirar-me a paz. O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), braço científico da ONU, divulga relatório que nos devolve a culpa. Pior: se antes o IPCC jogava o calor apenas nas emissões de gases efeito estufa, seu novo estudo põe a Federação de Corporações Brasil no placar.

Mudanças no uso da terra contam. Áreas desmatadas de florestas intensificam radiações que contribuem com o aquecimento, mesmo sem emitir os tais gases.

“Mas nós ainda temos milhões de quilômetros quadrados de florestas; e eles que acabaram com tudo? Só pode ser interesse comercial!”, diz o patriótico defensor do novo Código Florestal.

Paciente, concordo e sussurro: “Mas, e daí? Se o deles já era vamos repetir a mesma insanidade”?


A Amazônia tem 5,5 milhões de quilômetros quadrados cobertos por floresta tropical. Para chegar aos 7 milhões, devemos incluir as bacias hidrográficas. Mais de 60% de tudo isso no Brasil.

Até o início da década de 1970, o desmatamento esteve estabilizado, ligado a atividades extrativistas das populações locais. A partir de 1978, com a abertura da Transamazônica, o processo acelerou. Em dez anos, cresceu à taxa de 1,7% ao ano. De 170 para 377,7 mil km². A grande devastação, no entanto, ocorreu de 1988 a 2003, quando o total atingiu 648,5 mil km².

A partir de 2004, instituídos aparelhos de controle e identificação e ações punitivas, como suspender a concessão de crédito rural, permitiram um bom alívio. Até 2012, o desmatamento caiu 84%. De agosto de 2012 a julho de 2013, porém, segundo o Ministério do Meio Ambiente, houve um aumento de 28% no corte raso de árvores. Foram desmatados 5.843 km² em um ano. Piscamos os olhos?

A ministra Izabella Teixeira, diz que nada mudou no nível federal e critica as administrações locais. É pouco. Precisaria reconhecer no desmate novos ares e fins.

Caem os motivos agropecuários e crescem os especulativos: a valorização de terras próximas às construções de estradas, hidrelétricas e projetos mineratórios. Acrescente-se o afrouxamento trazido pelo novo Código Florestal. Liberação e anistia de áreas antes protegidas. Segundo o MMA, 60% dos desmatamentos ocorreram em áreas menores de 25 hectares e durante o inverno amazônico, quando a detecção por satélite é mais difícil.


Contar com as sucessivas tentativas mundiais, como agora em Varsóvia, é frustrar-se. No estágio atual do capitalismo país nenhum cederá grana e posição em troca do futuro da vida no planeta. O capitalismo mudou sua face. As transferências, antes preferencialmente coletivas, passaram a individuais.

Lembro-me do professor Antônio Cândido em entrevista sobre o fracasso do socialismo. Algo assim: “Fracasso? Sucesso! Quantos avanços do capitalismo não vieram pela pressão do socialismo?”.

Hoje em dia, aparelhos de controle do Estado, mesmo os mais eficientes, não são capazes de se impor ao rentismo arraigado no topo da pirâmide; as iniciativas privadas, além de tópicas, cedem ao primeiro vermelho contábil; os grupos ambientalistas são apontados como meios de interesses comerciais.

Nos países pobres, a contingência de sobreviver danifica o ambiente rural, e as administrações públicas deixam soltos os setores industriais e de serviços urbanos.

Convivem na Amazônia 2.500 espécies de árvores e 30 mil de plantas. Seus rios despejam no mar 175 milhões de litros de água por segundo. Povos locais ali fazem a vida e preservam uma biodiversidade que logo valerá mais do que o capital que, dizem, hoje em quase nada agregamos.

Aumentar o desmatamento na Amazônia, como no último ano, significa fazer o que loucos não fazem. Rasgar dinheiro.

Texto de Rui Daher originalmente publicado no Carta Capital.


Uma rápida observação:

Assim como a maioria resiste em aceitar a morte individual como parte do processo natural de manutenção da vida, resistência infinitamente maior é apresentada quando se fala na extinção de nossa espécie.

Mas está acontecendo sim. Estamos cavando nosso túmulo e a possível extinção de nossa espécie tem a peculiaridade de estar sendo provocada pelas insanidades da própria espécie que agarrada ao hábito de se achar superior à natureza destrói a necessária cadeia de suporte à vida no planeta.

"... por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti."

14 de novembro de 2013

Operação False Flag - Copa do Mundo e Manipulação

False flag é uma tática de guerra militar amplamente utilizada na política mundial, que por vez pode ser utilizada para fins escusos no Brasil. Esta tática consiste em utilizar da bandeira do inimigo falsamente, para se aproximar, conquistar ou eliminar o seu adversário. Por exemplo, em uma guerra um navio americano poderia se disfarçar de um navio japonês para eventualmente se aproximar do inimigo e eliminá-lo. Saiba que existem diversas convenções internacionais que regulam e determinam o que pode ou não ser feito em uma guerra, e os mecanismos de false flag possuem muitas restrições.


Este texto não se trata de técnicas militares, mas sim político-militares, artifícios de inteligência e contra-inteligência algumas vezes utilizadas na política, ou em corporações civis. Veja bem, imagine a seguinte situação: a Copa do Mundo de 2014 está chegando e diversas empresas estão prestes a ganhar rios de dinheiro, assim como políticos estão determinados a fazerem um evento de prestígio mundial. Neste cenário temos alguns agentes interessados no sucesso deste grande evento, porém encontram-se diversos obstáculos para que este evento seja bem sucedido. As barreiras do sucesso poderiam ser parte da população civil se organizando para boicotar o evento, ou um pacote de exigências legais determinadas pela FIFA que ainda não foram votadas pelo Congresso Nacional.


Neste cenário, seria importante para qualquer interessado político, ou econômico, acelerar os procedimentos que garantissem a estrutura para uma Copa do Mundo bem sucedida. Para corrigir esses impedimentos seria necessário criar um inimigo, agir em nome desse e colocar eventualmente a culpa nele. Por exemplo, depois da mídia criar alguém para ser culpado é necessário se montar uma história que a população compre como verdadeira, para só depois manipular os efeitos decorrentes. Imagine que diante do cenário atual em que se criminalizam as manifestações de rua, temos possivelmente alguns agentes para serem atribuídos a culpa.

Agora, visualize a possibilidade de que sejam implantadas alguma situação terrorista no Brasil, temos alguém pra culpar e muitos para comprar a história. Quais são os efeitos disto? Um apanhado de medidas restritivas, leis antiterroristas, mais armas menos letais, e tudo mais que for exigido pelas grandes corporações mundiais interessadas. A desculpa, é mais segurança para o povo e punição para todos aqueles que subvertem a ordem. Esse discurso já colou diversas vezes na história da humanidade, é a tal "Lei e Ordem", "Tolerância Zero", tudo em nome da segurança para tornar o "cidadão de bem" livre. Os efeitos legais normalmente são permanentes e extremamente prejudiciais para o processo democrático do país.


Talvez este fosse um cenário trágico demais para ser contado, cheira conspiração, porém diversos false flags são diariamente montados para converter a opinião pública em prol de determinados fatores políticos. Não precisa ser grande, nem escandaloso, basta ser efetivo o suficiente para que você mude de opinião em favor daqueles que detém o poder e o interesse. Em quantas operações false flag você já não foi vítima de opinião? Basta um pequeno flagrante forjado, uma vítima para pô-lo como vilão atribuindo-o a culpa e uma mídia ingênua para divulgar o evento.

Texto retirado da Fanpage Advogados Ativistas.

8 de novembro de 2013

Diego Frazão - Um menino que viverá para sempre

A foto foi registrada em outubro de 2009 por Marcos Tristão durante o enterro do Coordenador do AfroReggae, Evandro João Silva. O menino da foto chamava-se Diego Frazão e tocava na Orquestra de Cordas da ONG que fez uma homenagem ao Marcos. O menino da foto morreu seis meses depois do registro fotográfico. Sua morte foi em decorrência de leucemia que só foi descoberta, infelizmente, muito tarde. Morreu aos doze anos.


Improvável um menino que morava na favela aprendesse a tocar violino. Improvável que esse menino fosse capaz de emocionar a quem o olhasse tocar sem sequer ouvir o som de seu instrumento.

Improvável mas não impossível.

Ele aprendeu e dizem que realmente tocava bem. O menino emociona com suas lágrimas e sua história. Esse menino, cuja vida foi tão dura e breve, eternizou-se nessa imagem e nos corações de quem a vê.

Obrigado ao Marcos Tristão, cuja lente registrou a imagem. Graças a você o Diego Frazão é um menino que viverá para sempre.

5 de novembro de 2013

A inconveniência das doações eleitorais por empresas - Márlon Reis

As eleições 2012 acabaram. Fora algumas pendências judiciais localizadas, os prefeitos e vereadores de todos os municípios brasileiros foram escolhidos e empossados.

Em muitos lugares, entretanto, o resultado eleitoral pode não ter sido alcançado da forma mais democrática. É que assistimos outra vez ao festival de doações feitas por empresas diretamente interessadas no resultado do pleito.

Empreiteiras, bancos e a indústria da mineração figuram sempre entre os maiores doadores. Todas têm em comum o fato de manterem relações estreitas com o Poder Público, cujas opções políticas e contratos definirão quem lucrará mais.


Segundo dados da Folha de S. Paulo (edição de 29.11.2012),  apenas três empreiteiras investiram R$ 151,7 milhões dos R$ 637,3 milhões recebidos pelas siglas. Trata-se de dinheiro doado diretamente aos partidos e que não se pode saber ao certo a que candidatos beneficiaram. Essa manobra é conhecida como “doação oculta”, já que priva os eleitores de saberem, antes do pleito, quem fora auxiliado pelas empreiteiras ao longo da campanha. 

Nesse campo, o setor privado não é tão privado assim. Em lugar de se voltar à regulação, à prestação de serviços públicos e à elaboração de políticas de inclusão, o Estado se converte no principal provedor de empresas milionárias, recompensando-as por seus “serviços eleitorais” por meio de licitações fraudulentas ou da contaminação das decisões do Parlamento ou do Executivo.

O certo é que o dinheiro é decisivo para o alcance dos resultados eleitorais positivos. Estudo de Leany Barreiro Lemos, Daniel Marcelino e João Henrique Pederiva, analisando as disputas para a Câmara dos Deputados e para o Senado nos anos de 2002 e 2006 concluiu que “os candidatos vencedores gastaram, em média, cinco vezes mais do que os adversários” (“Porque dinheiro importa: a dinâmica das contribuições eleitorais para o Congresso Nacional em 2002 e 2006. Revista Opinião Publica”).

Isso significa, em linguagem clara, que o volume de doações impacta decisivamente os resultados eleitorais. Daí que a conquista dos grandes doadores pode ser a diferença entre a vitória e a derrota no pleito. E o pior é que, uma vez eleito, o beneficiário se sentirá obrigado a atender bem o seu doador. Assim pode ter esperança de voltar a ser ajudado nas eleições seguintes.

O resultado dessa relação é perverso e foi recentemente demonstrado em pesquisa realizada por Taylor C. Boas, F. Daniel Hidalgo and Neal P. Richardson, da Universidade do Texas: cada real doado ao longo das campanhas retorna às empresas doadoras multiplicado por 8,5.

Segundo os autores, “ao doarem para candidatos aptos a vencer as eleições, empresas brasileiras que prestam serviços ao poder público podem aumentar o valor recebido em virtude dos contratos com o governo durante o período legislativo subsequente. A extensão deste impulso nas empresas que atuam setor público – pelo menos 8,5 vezes o valor doado e possivelmente mais se for considerado todo o período do mandato, além do nosso intervalo de pesquisa de 33 meses – mantém relação com a taxa de propina que as empresas informam terem oferecido a políticos para a obtenção de contratos no passado.   Neste sentido, os nossos resultados confirmam a sabedoria convencional de longa existência no Brasil. Segundo nosso conhecimento, no entanto, este estudo é o primeiro a demonstrar que o jogo da doações-por-contratos no Brasil se estende além dos incidentes bem pulgados que foram descobertos por investigações policiais e comissões parlamentares de inquérito. Para cada empresa e político pego em flagrante, há muitos mais, cujo conluio voa sob a tela do radar. Usar doações de campanha para comprar contratos de obras públicas faz – infelizmente, mas, provavelmente, não surpreendentemente -  parte integrante da democracia brasileira” (The spoils of victory: campaign donations and government contracts in Brasil. Hellen Kellog Institute for International Studies).

Muitos outros estudos nos ajudam a compreender essa conta que não fecha para a sociedade. Mas uma coisa podemos desde logo concluir: democracia não é isso. O objetivo das empresas é o lucro e essa essa meta de forma alguma é esquecida durante as campanhas.

Além dessas razões práticas, há razões constitucionais claras para se proibir doações com essa origem. Recentemente, a ministra Cármen Lúcia, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, afirmou que “não há por que empresa fazer financiamento de campanhas. Esse é um dado que precisa mesmo ficar às claras. Pessoa jurídica não deveria contribuir, porque não é cidadão”.

Com efeito, tramita no Supremo Tribunal Federal ação direita de inconstitucionalidade movida pela Ordem dos Advogados do Brasil em que se busca justamente a abolição da intromissão das empresas no financiamento das campanhas.

De qualquer modo, não haverá uma Reforma Política real sem a superação das graves distorções provocadas pelas doações por pessoas jurídicas. Precisamos, país, superar essa etapa que, ante os olhos da sociedade, já não mais possui qualquer justificativa.


* Texto reproduzido com autorização e originalmente publicado no site do Autor. Recomendo clique aqui.


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